Salve galera! Iniciando aqui uma série de posts no qual comentarei algumas músicas que estão fazendo sucesso no meio cristão e que considero dignas de um olhar mais crítico, a #SinalDeAlerta . Meu intuito com esta série não é gerar polêmicas ou fazer críticas aos artistas por trás das canções (muitos deles eu gosto e acompanho, inclusive) e sim alertar para o cuidado que devemos ter ao escolher repertório para nossas igrejas e eventos cristãos, pois muitas vezes passamos um ensino distorcido das escrituras através de nossa música. Vamos lá?
A música escolhida para abrir a série é a música FELIZES SÃO da banda Morada, uma banda que surgiu com força na cena cristã nos últimos tempos.
Em uma primeira audição a canção me chamou muito a atenção por alguns aspectos positivos e outros nem tanto. Musicalmente falando a ideia me pareceu atrativa. Uma rítmica de bateria “interessante” e um riff de baixo marcante já no início da música me instigaram curiosidade. O refrão com a frase “felizes são aqueles que não viram” repetidas vezes é marcado por um ritmo sincopado de caixa (o timbre da batera grave e com um tempo de kick um pouco mais lento e arrojado dão uma cor diferenciada ao arranjo) que torna a cessão bem interessante, mas nos apresenta um sério problema musical. Ocorre neste trecho uma série fatal de erros de prosódia musical quando as palavras cantadas tem uma sequencia de sílabas tônicas alteradas para encaixar na rítmica presente, mudando inclusive o sentido da letra de “felizes são aqueles que não viram (VER, no pretérito perfeito) e te amam (amar, no presente)” para “felizes são aqueles que não virÃO (VIR, no futuro do presente) e te amÃO (alguma coisa que não existe)”. AI!, este refrão me incomodou absurdamente! Minha conclusão depois de ouvir algumas vezes é de que bem possivelmente a ideia musical saiu pronta no momento criativo muito antes de se ter a letra, pois a letra (com todos os seus erros teológicos, e disso falaremos agora) é arrastada fortemente pela musicalidade da canção o tempo todo, inclusive tropeçando na prosódia. Por algum motivo banda e/ou produtor não quiseram deixá-la de fora do álbum (que tem músicas incríveis), provavelmente pela forte ideia musical, mas aqui estamos nós…
Partindo para a parte teológica colecionaremos alguns "probleminhas", formando um grande emaranhado de afirmações absurdas. Vamos a letra:
Quem te viu multiplicar o pão, Perdeu a fome
Quem te viu ressuscitar os mortos, Perdeu o medo
E quem te viu morrer naquela cruz
Perdeu a fé, perdeu a fé
Quem te olhou nos olhos sem chorar
Quem se acostumou com Tua presença
Não sabe o que é viver pela fé
Felizes são aqueles que não viram
Felizes são aqueles que não viram
Felizes são aqueles que não viram
E te amam, e te amam
Eu nunca vi, mas tenho fome
Eu nunca vi, mas estremeço
Eu nunca vi, mas sempre vou chorar
Eu nunca vi, mas tenho fé
Eu nunca vi, mas eu Te amo
Porque eu nunca vi alguém igual a Ti
* A multiplicação dos pães em João 6, por exemplo, relata (para não falarmos de forma mais complexa dos ensinamentos dados por Jesus através destes milagres) que a multidão estava faminta, comeu quanto queria (v.11), se fartou (v.12), e ainda sobraram doze cestos cheios. Ninguém “perdeu a fome”! E os versos 14 e 15 revelam que houve conversão de quem O viu multiplicar o pão.
** Na ressurreição de Lázaro em João 11, vemos que as pessoas envolvidas, movidas pela tristeza da sua morte, expressaram sentimentos de revolta por Jesus ter permitido que ele morresse e por não estar presente ali (vs.20-21). Nos versos 45 ao 48 do mesmo texto vemos que quem o viu ressuscitar os mortos (principal e primeiramente) CREU nEle. Em segunda instancia, as autoridades TEMERAM o que aconteceria se todos CRESSEM nEle. Ninguém “perdeu o medo”, e sim ficaram espantados e creram.
A premissa da letra de que é melhor “não ver” distorce completamente a origem e motivação dos milagres e feitos de Jesus que era afirmar sua deidade e o início do ministério messiânico, bem como os milagres feitos pelos apóstolos com o intuito de reforçar que operavam pelo mesmo Espírito que Cristo e por isso eram dotados de autoridade apostólica. Esta premissa distorce até mesmo o versículo chave da letra “bem-aventurados os que não viram, mas creram” em João 20.29. Esta afirmação vem justamente ao contrário da premissa adotada na letra do Morada, pois afirma que se é feliz por poder crer aquele que viu, quanto mais feliz (bem-aventurado) seria aquele que não tendo visto creu (pois é bem mais difícil).
*** Esta afirmação seguinte eu realmente preferia não ter ouvido/lido! Não preciso citar um texto sobre a crucificação ou explicar suas implicações para a vida do eleito/salvo para vermos que afirmar “...quem te viu morrer naquela cruz perdeu a fé” não somente não faz sentido teológico como é uma heresia. Pois a própria fé (dom de Deus) tem o alvo de crer em Cristo e em sua OBRA REDENTORA (na cruz). A fé dada por Deus para a salvação (vide primeiros cap. de Efésios) não é a capacidade de crer em milagres, mas nesta obra. Todo o milagre citado na letra teve o intuito de dar créditos à Cristo para levar as pessoas a crerem quando esta obra viesse a acontecer (na cruz), mas isso parece ser desconsiderado aqui. Enfim, aqui acendemos de vez o #sinaldealerta !!
**** "...quem te olhou nos olhos sem chorar..." (lembrando o fato de que ninguém viu a Deus, senão a Cristo, seu filho unigênito , João 1.18) a afirmação sobre vê-lo e não chorar vem de encontro a tendência sentimentalista que vemos na cena "gospel" e que tem força redobrada no movimento de adoração extravagante. "...quem se acostumou com tua presença não sabe o que é viver pela fé" esta afirmação é simplesmente sem sentido. em que momento ter a presença de Deus pode ser prejudicial, enquanto igreja? Poderíamos nós nos acostumarmos com tal presença a ponto de "cansarmos" dela? Teríamos nossa fé sufocada por tão gloriosa presença? Talvez, como o povo peregrino no deserto, pudessemos nos "acostumar" com a provisão diária a ponto de não creditarmos nosso pão, nossas vestes, nosso abrigo e etc à Deus (e isso muitas pessoas acabam fazendo, quando tendo a provisão diária em suas vidas estão em constante murmuração), mas estar diante de tão marcante presença e não saber o que é viver pela fé... bem é uma afirmação bem perigosa, pra deixarmos nestes termos.
O resto da letra apenas reforça a premissa errônea girando em torno da ideia de que é melhor não ver, pois não vendo (diz o autor) se tem fome, fé, se estremece, chora e ama…
Concluo questionando o que o fenômeno gospel tem ensinado às nossas igrejas. O quanto nossas canções estão de fato louvando a Deus ou simplesmente testemunhando/explicando algo bíblico com intuito Evangelístico. Precisamos de todo o cuidado possível para que nosso momento de louvor não ensine verdades contraditórias as pregadas nos púlpitos e, principalmente, contraditórias as escrituras. O comprometimento teológico de nossas letras tem sido uma grande falha dos nossos artistas e produtoras hoje. Reflitamos mais sobre isso.
Grande abraço,
Graça e paz à todos, e
ATÉ O PRÓXIMO POST!!